Um lugar escuro

Estou lendo livros de relatos de familiares de idosos com a doença de Alzheimer e um dos que mais me tocou foi “Um lugar escuro” indicado pela minha querida amiga Silvia. Heloisa Seixas conta o cotidiano de viver com sua mãe que tem Alzheimer. Na minha tese avanço a hipótese de que com a doença de Alzheimer as mudanças não são apenas cognitivas mas o próprio Eu se transforma de forma irreversível. Na linguagem psicanalítica, as trilhas associativas, a memória, sustentadas pelas trocas neuronais, escolhem os caminhos mais curtos para passagem da libido, ou das informações, o que faz que nos comportamos sempre da mesma forma. De forma previsível, dando as pessoas a nossa volta a impressão que elas nos conhecem. Com o avanço da doença, trilhas novas vão sendo tomadas, o principio de realidade vai sendo deixado de lado em nome do principio do prazer. No trecho do livro que escolhi pra este post e pra mim tese, Heloisa conta de forma dolorosa que a mãe tinha o habito de sempre deixar o melhor pedaço do frango para os filhos, sempre colocando as necessidades dos outros antes das suas. Com a doença, sua mãe, e outros doentes, passam a se comportar de forma inesperada, por vezes egoísta, mas distinta de como sempre fizeram. Frente a estas mudanças, os familiares sentem-se traídos. Por mais difícil e complexo que seja acompanhar alguém num processo de mudança tão intenso e imprevisível, temos que compreender que parte do sofrimento ligado a doença vem do fato que não podemos aceitar que quem amamos mude. que o amor que ele tem por nós faria com que se mantivesse o mesmo, para nosso bem estar, até o final. 

“Pois todos estes aspectos, bons e ruins, da personalidade da minha mãe começaram a mudar. Aos poucos, ela se transformou no avesso de si mesma, deixando aflorar tudo o que havia passado a vida negando ou escondendo. Onde havia liberalidade, surgiu um conservadorismo tacanho. A mulher seca foi dando lugar a uma pessoa manhosa, cheia de vontades, exigindo de filha e neta todos os abraços, beijos, carícias que nos tinham sido negados a vida toda. A mulher generosa se transformou em perdulária, muitas vezes comprando coisas inúteis e gastando dinheiro de forma compulsiva. A personalidade alegre se fechou em modos ríspidos. Passou a implicar com tudo e com todos, brigou com os vizinhos, teve discussões na rua. Tornou-se medrosa, sensível a qualquer dor. E, de uma hora para outra, passou a exigir a melhor parte do frango. Durante esta fase de transformação da personalidade, que se estendeu por pelo menos cinco anos, muitas coisas aconteceram. Esquecimentos, trocas de nomes, teimosia, pirraça, mas tudo me parecia normal, coisa de quem está envelhecendo. Ela não estava louca. Apenas de vez em quando acontecia um episódio mais assustador, capaz de disparar dentro de mim um alarme, cujo ruído, ainda assim, eu procurava ignorar. (SEIXAS, 2013, p.19).”

 

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O cuidado de idosos como um campo intersubjetivo: reflexões éticas

Este artigo, que acaba de ser publicado na revista Interfaces de Botucatu, é fruto da minha experiência no trabalho como Acompanhante Terapêutica (AT) de idosos, suas famílias e seus cuidadores, assim como do encontro com meu orientador de doutorado Nelson Coelho Junior e dos temas por ele pesquisados referentes a ética, a epistemologia, a alteridade e ao cuidado. Na Por Vir, a dois anos trabalhamos arduamente para contribuir para a difusão de uma nova cultura ligada a um cuidado marcado pela autonomia e pelo respeito do outro como sujeito de direitos e escolhas.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832016005025101&lng=pt&nrm=iso

Entrevista sobre demências

Há algum tempo a Por Vir vem trabalhando junto à agência de cuidadores Guardiões de Vidas.

Na revista desse mês há uma matéria sobre demências comuns ao envelhecimento.

Boa leitura!

http://goo.gl/XSsnDG

Só é possível viver com leveza quando sabemos que logo a vida vai acabar

Só é possível viver com leveza quando sabemos que logo a vida vai acabar

Contardo Calligaris

18/08/2016

Fui ver “A Viagem do meu Pai”, de Philippe Le Guay, que me pareceu muito melhor do que diz a crítica. Espero que o filme continue em cartaz: é uma visão tocante (e não desesperadora) da idade avançada –na experiência do idoso e dos que convivem (ou conviverão, mais cedo ou mais tarde) com ele.

Claro, o filme só conta “uma” história. Em matéria de velhice, é bom lembrar o título do ótimo livro de Jack Messy, que imitava o bordão de Lacan sobre a mulher: “A Pessoa Idosa Não Existe” (ed. Aleph). Messy lembrava, assim, que cada um envelhece do seu jeito.

Uma frase de Julian Ajuriaguerra (grande neuropsiquiatra e psicanalista) circulava como um provérbio, no hospital Sainte-Anne: “On vieillit comme on a vécu” (a gente envelhece como viveu) –ao envelhecermos, seremos nós mesmos, só que velhos.

Lembro-me de uma conversa, nos anos 1980, com Jean Bergès (sucessor de Ajuriaguerra no hospital Sainte-Anne). Eu descrevia um caso de alexitimia num paciente idoso (alexitimia é uma extrema dificuldade em verbalizar, descrever e até viver sentimentos e emoções). Eu entendia a dita alexitimia como um sintoma da idade do paciente. Bergès observou que existia uma boa chance de que meu paciente não fosse muito diferente quando era jovem.

A velhice não é um tipo de personalidade e, se for um transtorno, seria reativo: o jeito de cada um reagir à perda da identidade profissional (que pesa desde a aposentadoria), à sensação de uma maior proximidade da morte, ao luto do casal e dos amigos, que vão morrendo, à perda da saúde (nem tanto pela chegada de uma grande doença quanto pela síndrome do carro velho, que começa a dar uma encrenca atrás da outra), à perda da autonomia (com necessidade de ter assistência ou de viver num quadro comunitário) etc. A lista é longa.

A reação a essas perdas, muito mais do que a idade, define o que é a velhice avançada. Há o idoso que se deprime, há aquele que se angustia, e quase todos começam a delirar. O idoso tem boas razões para ser paranoico.

Começa com a constatação de que, em tese, ele vai morrer antes dos outros: o que significa que os mais jovens o empurram para a saída. Passa pela sensação de que ele está sendo roubado por aqueles que ficarão com suas coisas (a casa e o relógio, por exemplo). E acaba na necessidade de se mostrar sempre desconfiado: não me deixo enganar significa, no caso, “ainda não estou morto”.

As mesmas razões que alimentam a paranoia do idoso produzem sua falta de interesse na vida dos outros. Frequentemente, conversar com um idoso é um exercício de humildade. O que a gente diz tem pouca importância, e o interesse do idoso é fingido –como se nada pudesse se comparar ao drama da vida dele que está acabando.

Agora, eu gosto dos idosos e de sua companhia, mas admito que esses meus “bons sentimentos” sirvam sobretudo a esperança de ser eu mesmo amado (e amável) quando serei idoso. Concordo, não vai ser fácil.

O idoso somos nós amanhã. Mas no sentido oposto ao que acontece com as crianças; sonhamos que as crianças venham a ser tudo o que queríamos ser e não fomos, enquanto o idoso é o fruto de uma espécie de idealização negativa: ele é o que não gostaríamos de vir a ser, é o retrato de um declínio que preferiríamos evitar.

Será que a grande idade, então, não traz nada de bom? O que há de interessante na experiência do idoso? Além do luto antecipado de si mesmo, além da sensação de superfluidade em fim de linha, além de um certo nojo de si e de um corpo que falha, além da desconfiança (vocês não me matarão e descartarão enquanto durmo)”. Não há nada que preste?

Em outras palavras, será que existe um jeito “legal” de ser idoso? Será que as perdas podem trazer algo diferente do ressentimento e do luto? Será que pode valer a pena viver até lá?

Gostei da última cena do filme de Le Guay. Justamente porque acho que deve ser possível envelhecer até ser idoso “pegando leve”. Explico.

Há um clichê que pergunta sempre como podemos viver sabendo que logo iremos morrer.

A velhice avançada poderia ser o momento em que a gente descobre que talvez esse clichê possa e deva ser subvertido, com a sabedoria que a grande velhice traz: saber que vamos morrer não impede de viver –ao contrário, só é possível viver com leveza quando sabemos que logo a vida vai acabar. Essa é a sabedoria do idoso.

 

 

Palestra Alzheimer

Convidamos a geriatra Bruna Algranti para falar sobre a Doença de Alzheimer, suas etapas e tratamento. O evento, organizado em parceria com a Clínica Axis e com a Saint Martin acontecerá no dia 25 de junho.

É necessário se inscrever com antecedência e a participação é gratuita.

Esperamos todos lá!

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O CRI Norte, Centro de Referência do Idoso da Zona Norte, tem organizado encontros para discutir temas ligados ao envelhecimento. Esses encontros acontecem sempre na terceira quarta feira do mês no auditório do Hospital Santa Catarina.

Dois profissionais são convidados a refletir sobre o envelhecimento a partir de perguntas  lançadas por uma jornalista que vai mediando a conversa. Depois o público participa e enriquece o debate com perguntas e relatos de experiência.

Em junho o tema será Direitos da pessoa idosa e contará com a presença de Karla Giacomim e Andre Uehara.

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II Conversas clínicas Ger.Ações

A Ong Ger.Ações promove a II conversa clínica sobre acompanhamento terapêutico e envelhecimento.

Será no dia 18 de junho, das 9:30 às 12 hs. As inscrições devem ser feitas pelo e-mail at@geracoes.org.br

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Corpo e envelhecimento: uma perspectiva psicanalítica

Kátia Cherix

Universidade de São Paulo, São Paulo, SP

 


RESUMO

O presente artigo pretende explorar o tema da relação entre corpo e envelhecimento sob o olhar da psicanálise. O corpo que se torna psiquismo, corpo erógeno e possibilidade de ação sobre o mundo na juventude, na crise do envelhecimento, pode se tornar estranho e limitador. Diante desta experiência, podemos encontrar dificuldade de nos reconhecermos na nova imagem que vemos refletida no espelho. Esta nova imagem aponta para o declínio físico, para impotência e para a dependência do outro. O processo de envelhecimento é um momento de luto e elaboração de perdas à procura de novas formas possíveis de satisfação. Durante este processo, o corpo chama o psiquismo a enfrentar novamente o complexo de castração e re-elaborar conteúdos edípicos em busca de um novo posicionamento subjetivo. Concluise que envelhecer é um processo totalmente subjetivo e singular, marcado pela inquietude que problematiza o encontro, dentro de cada um, da realidade externa com a realidade psíquica. Neste sentido, este processo requer um reposicionamento subjetivo importante que só pode ser feito se mudanças intrapsíquicas profundas acontecerem e encontrarem respaldo no olhar do outro.

Palavras-chave: corpo; envelhecimento; psicanálise.

 

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582015000100003&lng=pt&nrm=iso

Autonomia e direito de morrer

Autonomia e o Direito de Morrer com Dignidade

Maria Julia Kovács

 

Resumo

O texto coloca em discussão algumas questões relativas à autonomia do paciente em estado grave. Os recursos tecnológicos da medicina atual permitem o prolongamento da vida em muitas situações que, até um passado relativamente recente, determinavam a morte do paciente. O que se procura discutir é se o prolongamento artificial da vida deve se sobrepor obrigatoriamente como única alternativa eticamente válida, mesmo quando envolve sofrimento para o doente, para os que lhe são próximos e comprometimento da dignidade da pessoa. Qual o sentido de se falar,nestes casos, da validade ética de uma morte digna?